— Espera! Espera! Para onde vamos? O que você pensa em fazer? − pergunta.
— Nós vamos nadar. − respondo baixo e sorrindo perto do ouvido dele.
— Nadar? Você é louca? Eu não sei nadar! Não posso nadar. Não conseguirei nadar. Estou em uma cadeira de rodas, esqueceu?
— Não vou deixar você desaproveitar sua vida em cima disso. − digo.
— O “disso” me impede de andar e aproveitar a vida. − responde.
— Nada a ver! − respondo alto.
— Tudo a ver! − diz ele, segurando as rodas e me olhando.
— O passarinho tem patas, mas prefere usar as asas. − retruco.
— Passarinho? Patas? Asas? Mas… Isso não faz o menor sentido, Celeste! Pirou de vez?
— Pois é. Da mesma forma que sua cadeira de rodas também não faz sentido. Ok?

Empurro a cadeira pela grama e o levo para a beira do lago. Ele me olha como quem não acredita que eu faria aquilo, mas, no fundo, ele queria que eu fizesse aquilo. 

— Consegue sentir? − pergunto. — Adoro esse lugar! E esse cheiro… Me faz sentir liberdade. − completo.

Ele fixa seus olhos nos meus. 

— Isso só pode ser loucura. − diz ele. 
— Isso só pode ser amor. − digo.

— Diário de um sonhador / CELESTE 

Nós começamos a subir nas pedras. Eram altas e escorregadias. Fiz como ele havia orientado: segurar nos galhos, não fazer muita força com os pés e compensar o peso colocado nos pés, com os braços. Eu nunca tive habilidade para coisas aventureiras, mas continuamos subindo. Ele acima de mim, e eu acima de tudo que estava lá embaixo. 

— Se eu não fosse tão lenta, já estaríamos no topo. – brinquei. 
— O topo não é importante. Há dias em que as pedras estão muito escorregadias. – ele para de subir e olha para baixo.
— E o que você faz?
— Desço tudo novamente. – e sorri. 
— Você desce isso tuuuuudo? Adianta alguma coisa tentar subir nos dias escorregadios? – perguntei espantada. 
— Claro que sim! Eu encaro isso como encaro as coisas da minha vida. Como eu te disse, o topo não é importante. O que importa é o caminho que irei percorrer até chegar ao topo. O topo é a recompensa do meu esforço e cuidado de subir. Um pé no lugar errado ou uma pegada fraca, eu caio. Assim são as coisas da vida. O que importa é o caminho que iremos percorrer. As coisas mais importantes estão nesse trajeto. Entende? O objetivo é a recompensa, o verdadeiro resultado de todo o caminho. E sobre as pedras escorregadias e eu ter que voltar tudo novamente, também serve como exemplo. Às vezes, o caminho não está favorável. Temos que voltar, abdicar de coisas na vida e tentar novamente mais tarde. Uma hora a gente consegue. Uma hora a gente chega lá. Na hora certa. – disse ele, respirando fundo e olhando para a paisagem. — Vamos continuar subindo? Não podemos parar no tempo. Me siga! 

Aquilo foi forte para mim. Fiquei calada por um bom tempo. Caiu como uma luva. Me vestiu como um vestido de noiva. 

— Diário de um sonhador / Sereno 

O teu sorriso será sempre o mais bonito; as tuas caras e bocas serão as mais marcantes e engraçadas; o teu olhar será o mais profundo; o teu beijo o mais doce; as tuas mãos as mais macias; o teu corpo o mais quente acomodando o meu; o teu abraço o mais confortável; e o teu amor será sempre o meu amor. Sem melancolia. Sem exagero. Digo isso na maior serenidade possível. 

— Diário de um sonhador